quiçá fosse verdade.

10:21 PM

Arthur e Augusto, no quarto de hóspedes. O cheiro de cigarro e suor, a música que vinha de lá, já era o quarto de Arthur.

- Não conte para ela. - disse Augusto, baixo.
- Para elas.
- Exatamente.
- Ela não suspeita?
- Creio que não. Talvez desconfie e até saiba, mas ela não tocou no assunto. Ocupada demais, preocupada demais. Clá é seu único bem.
- E essa situação toda?
- Tenho uma boa vida, um bom emprego, uma filha exemplar, meus álibis - Augusto lançou um meio sorriso para Arthur - e não vejo razão em estragar tudo o que construí.
- Eu não sabia que você era... - Arthur se sentiu desconfortável, não sabia se completava a frase. - Quando aceitou que eu viesse pra cá, você pensou... - Não sabia como completar a frase, novamente. Será que ele reagiria mal?
- Não, Arthur, eu não imaginei, a princípio, que isso fosse ocorrer. Eu mal te conhecia, como saberia? E eu mantenho contato com outros, que conheci ao longo da vida, mas o trabalho me impede que eu saia muito de casa. Ter você aqui é um alívio.

Arthur se sentiu incomodado. Não sabia explicar nem para si mesmo. Usado? Segunda opção?

- E por que faz isso com ela? Você não gosta dela? - pronto. A língua afiada como um prestobarba.

Augusto olhou para o chão, para o teto. Respirou, abriu a boca, não saiu nada.

- Ela... Sempre foi uma ótima companhia. Não é que eu não a ame. Eu ainda sinto muito carinho, mas não é por isso que preciso me manter atado a uma única pessoa.

Augusto se levantou, foi até a porta, murmurou algumas palavras que Arthur entendeu que fossem "boa noite" e saiu.

Arthur pensou que talvez ele tenha cutucado uma ferida que não era de seu direito mexer. Mas não sentiu remorso. Pensou na cama, de solteiro, que cabiam dois dele. Se fosse gordo, ou forte, ocuparia a cama toda. Nada de vazios.

Deitou e seus pensamentos questionavam e duvidavam, sua existência, esse vazio. A cama sempre vazia.

Virou pro lado e pensou em Nathália. Ela viria amanhã, poderia esquecer essas questões existenciais, enquanto trancados em quatro paredes. Naquela cama, vazia.

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